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Quinta-feira, 9 de setembro de 2010 |
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LITERATURA

Nova crônica de Rogério Pereira, no site Vida Breve
por Rogério Pereira
Tenho de segurá-lo firme, medir a força dos dedos no corpo delicado. Estamos à borda da transparência azulejada, solitários em nossa pequena imensidão. Conheço-o há pouco tempo. Ainda buscamos nos acostumar um ao outro, à presença desejada. Algo nos diz que dará certo. Em segundos, afundaremos. Deslizarei seu olhar curioso pelas profundezas. Do outro lado, alguém o espera. Depois da ainda inusitada viagem sob a água, ele apenas sorri. E volta para as minhas mãos — conchas a amparar um tesouro frágil. Animais inofensivos, não buscamos a batalha, o confronto. Estamos longe de nosso hábitat. Os movimentos são inseguros, tateantes. Há outros iguais a nós. Isso não nos causa nada: alegria, tristeza ou estranhamento. Neste momento, não há espaço para mais ninguém. Um casulo imaginário nos protege. Seguimos a ordem de comando: encaramo-nos de frente. Giro o seu corpo, embalado por uma canção saída de algum conto de fadas. Damos bom-dia à água. Ele parece não entender. É preciso espancar a superfície com as palmas das mãos. Giramos. Ao parar, todos se olham. Medimos as diferenças que nos unem. Alguns choram. Ele sorri. Não sei se de alegria ou alívio. Seguimos. Do meio do círculo inicia-se nova canção: “O alface já nasceu e a chuva quebrou o galho”. Agora, sou eu quem não entende. Alface é feminino. Ou no mundo aquático isso não tem importância? Nunca vi o galho da alface. Prefiro não contestar. Agarro-o com mais firmeza. Jogo-o para cima, enquanto canto com muita vontade e envergonhada alegria: “Rebola, chuchu; rebola, chuchu; rebola pra não cair”. Algo de ridículo insinua-se. Invade-me. Por que tantos vegetais? Serei um feirante aquoso?
•••
O tio gritava bem alto: “Bate os braços e as pernas”. Eu batia, me debatia. Uma minhoca a bailar no asfalto escaldante. Fora de ritmo, enroscava o corpo nas águas barrentas do rio, que tentavam arrastar-me para longe. Ao alcançar a margem — a eternidade ficara para trás —, certo alívio invadia-me as narinas, a boca e os grotões da alma. Grudava os dedos no capim e respirava fundo. Estava a salvo. Um boi sempre pastava nas margens. Na água, meu irmão parecia o Tarzan: nadava feito um animal a buscar a salvação. Forte e vigoroso, revestia minhas braçadas de pernilongo de uma vergonha indisfarçável. Persistente: caía no rio que se divertia em me cuspir. Jogava todos os ossos contra a água. Era uma briga patética, desigual, quase insana. Eu afundaria antes de o sol sapecar a linha do arame farpado. Os primos riam da minha completa ignorância aquática. Nem os dedos grudados do pé direito me ajudavam. As nadadeiras herdadas de uma ironia genética serviam apenas de piada: um esquisito peixe a esconder as barbatanas no chinelo de dedos. Exausto, desistia. A derrota doía-me nas braçadas cambaias. Jamais aprendi a nadar.
•••
Seguro-o com a mão espalmada na barriga. O equilíbrio não me surpreende. Acrobatas, não precisamos de rede para nos amparar. Algumas mulheres olham-nos com certa admiração e, quem sabe, inveja. Você bate os braços e as pernas. Há graça e sincronia nos movimentos. Às vezes, a água entra-lhe pela boca. Quem lhe ensinou a mexer-se com a graça de um lambari? Deito seu rosto em meus ombros e o arrasto por toda a extensão azulejada. Na viagem, canto a música de um soldado de cabeça de papel, cujo fim pode ser um quartel em chamas. Ao fim, um ruído, um blimblom, e levanto tuas pernas em movimento pendular. Pequenas gotas desprendem-se do teu corpo. A delicadeza espalha-se. Voltamos para o centro de nosso diminuto oceano. Já estamos acostumados aos demais habitantes. Preparamos mais um mergulho. A professora conta até três e o afunda com muito vigor. Em minhas mãos, tenho de assoprar-lhe o rosto. Dizem que lhe faz bem depois de percorrer as profundezas marítimas. Em seguida, já cansados, grudamos as mãos em uma barra de ferro fixada nas bordas da piscina. Cantamos bem alto: “Macaquinho, macaquinho dá um pulinho…”. Os vegetais cedem lugar aos animais. O divertido circo aquático nos envolve. Está quase no fim. Voltamos para o centro. Um balde cheio de pequenos bichos coloridos boia à nossa espera. Você se encanta por uma foca roxa e um cavalo-marinho amarelo. Leva-os à boca. Tenta decepar-lhes a cabeça e o rabo. Uma bolinha cruza o teu olhar e encalha nas mãos de uma menina. Você me olha com o cavalo-marinho aprisionado entre as gengivas. O sol não sapeca o arame farpado. É hora de ir embora. Deixamos a piscina com disciplina militar: em fila, subimos a pequena escada metálica. Para trás, deixamos o quartel em chamas e um soldado cabeça de papel. No breve trajeto até a banheira, sempre ouço meu tio a gritar: “Bate os braços e as pernas”. Olho ao redor em busca de um boi a ruminar, do riso de escárnio dos primos. O capim roça meus pés. Estamos sempre retornando
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